Você inspira. E aí, no meio das lágrimas, das palavras e dos
olhares, alguma coisa acontece e te atinge no meio do estômago. Alguma coisa
boba, algum gesto, alguma frase sem importância. Não precisa ter importância.
Mas aí você percebe que não depende mais de você e você se sente impotente
porque existe uma coisa que está fora do seu controle e fora da sua escolha.
Sua vontade não conta pra nada. É nessa hora que todo o ar é expulso do seu pulmão, o seu
coração pula uma batida e você se sente a pessoa mais cansada do mundo. Você já
não consegue se expressar, nada faz sentido, você não quer respirar, não quer
deitar, não quer existir, mas você CONTINUA existindo e respirando e continua
sem ar. Respirando sem ar.
Depois vem a calmaria. Que dura pouco.
E daí você se lembra
de tudo e leva mais uma pancada no estômago. A barriga dó, nervosismo. Se novo
falta de ar. Dessa vez todo o seu corpo dói. E você sente dor em partes
do corpo que nem sabia que existia. E você pode chorar e gritar e ter raiva e
você quer voltar no tempo e mudar tudo. E você quer voltar naquele dia e
vivê-lo de novo e de novo e de novo. Mas
não importa o quanto você grite, o quanto você chore, não importa o quanto você
queira, nada disso vai acontecer. Você só tem uma coisa a fazer: tentar respirar.
Você tem raiva, você para de ter raiva no segundo seguinte.
Você ri de alguma coisa, e, sem que você perceba, uma nova pancada, dessa vez
no peito, te paralisa. Nenhuma ação, nenhuma palavra, nenhum sentimento. E você
percebe que já que não pode voltar no tempo e ser feliz que pelo menos você
continue sem sentir nada. Mas o nada
começa a te sufocar e volta a ser raiva, tristeza. Rejeição. Aí você entende que fracassou. Que não foi capaz de segurar
sua felicidade, e que ela te escapou entre os dedos e quanto mais você apertou,
mais rápido ela foi embora. Mas que ao mesmo tempo, você não podia abrir a mão.
Você fez o que pode. E o que você fez não foi o suficiente.
Você começa a se enganar, dizendo que começou a aceitar. Seu
celular pisca, você veste a sua camisola, você faz alguma coisa simples e
cotidiana como ligar o abajur. E é tudo ele, ele, ele
eleeleeleelelelelelelelelele. ELE. Sem parar, sem dar descanso, sem te deixar
respirar. Você expira.
Você inspira...

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